As plataformas de redes sociais digitais, em seus diversos formatos e finalidades, tornaram-se espaços de registro da memória coletiva contemporânea. Nesses ambientes, são depositados desde relatos dos usuários até manifestações institucionais e comunicados oficiais de líderes políticos.
Dito isso, a grande questão que envolve essa problemática e justifica este estudo está no fato de que essas plataformas pertencem a empresas privadas que moderam o conteúdo onde a memória coletiva é depositada. Essas corporações, que se autodenominam empresas de tecnologia, sustentam um discurso estratégico de falsa neutralidade para minimizar a real interferência na vida, no conhecimento humano e na memória coletiva. Contudo, esse discurso é frágil e controverso, como demonstrado no caso do lobby contra o Projeto de Lei 2630/2020 (Oliveira, Marques, 2024).
Nesse cenário, a memória coletiva está em disputa e submetida às regras de moderação das plataformas e às decisões de seus líderes. De acordo com Le Goff (2003), esse tipo de memória não é autônomo, mas está condicionado à ação de indivíduos e instituições. Diante do exposto, este estudo propõe a seguinte questão de pesquisa: como os conceitos de regime de informação e o novo regime de informação se relacionam com a preservação e a (re) construção da memória coletiva nas plataformas de redes sociais digitais?
Adota-se como conceito de memória coletiva o exposto por Halbwachs (2006), entendido como um processo social em que é possível construir, organizar e atualizar as lembranças a partir de referências compartilhadas no presente. Seguem com essa visão Silveira (2010) e Icléia Thiesen (2023) ao concordarem que o caráter migratório da memória faz com que ela não seja apenas uma evocação do passado, mas sim uma recriação do vivido, manifestada nas práticas cotidianas.
É nesse ambiente de disputas que torna-se central o conceito de regime de informação, aperfeiçoado e apresentado por González de Gómez (2012) que o compreende como um conjunto de padrões atravessados por condições culturais, políticas e econômicas. Soma-se a isso o conceito de novo regime de informação, proposto por Bezerra (2023). Para o autor, esse regime de informação contemporâneo caracteriza-se pelo fato de ser capitaneado por monopólios digitais, que adaptam rapidamente suas estratégias capitalistas às novas forças produtivas do ambiente digital.
Como objeto empírico, analisa-se o comunicado divulgado pelo CEO da Meta, Mark Zuckerberg, em 7 de janeiro de 2025, que anunciou o fim dos verificadores de fatos sob o argumento de 'restaurar’ a liberdade de expressão. A medida se deu em um contexto de aproximação política com o atual presidente norte-americano, Donald Trump, revelando alinhamentos ideológicos e econômicos. A partir da Análise de Conteúdo (Bardin, 2016), define-se três categorias de análise: a) condições sociopolíticas, econômicas e informacionais que atravessam o comunicado, b) mercantilização da memória coletiva, c) consequências para a preservação e a (re) construção da memória coletiva. Espera-se evidenciar como o regime de informação estabelecido nessas condições, marcado pela concentração de poder informacional nas plataformas, tende a expor a memória coletiva a riscos significativos, ao submetê-la à disputas políticas, econômicas, culturais e ideológicas.
Comissão Organizadora
Sociedade EPTICC
Comissão Científica
Ana Beatriz Lemos da Costa (TCU/UnB)
Anderson David Gomes dos Santos (UFAL)
Antônio José Lopes Alves (UFMG)
Carlos Alberto Ávila Araújo (UFMG)
Carlos Peres de Figueiredo Sobrinho (UFS)
César Ricardo Siqueira Bolaño (UFS)
Débora Ferreira de Oliveira (UFMG)
Edvaldo Carvalho Alves (UFPB)
Fernando José Reis de Oliveira (UESC)
Helena Martins do Rêgo Barreto (UFC)
Janaina do Rozário Diniz (UEMG/UFMG)
Janaíne Sibelle Freires Aires (UFRJ)
Kaio Lucas da Silva Rosa (UFMG)
Lorena Tavares de Paula (UFMG)
Manoel Dourado Bastos (UEL)
Mardochée Ogecime (UFOP/UFMG)
Marília de Abreu Martins de Paiva (UFMG)
Rafaela Martins de Souza (Universidade de Coimbra)
Rozinaldo Antonio Miani (UEL)
Rodrigo Moreno Marques (UFMG)
Ruy Sardinha Lopes (USP)
Sophia de Aguiar Vieira (UFMG)
Verlane Aragão Santos (UFS)